Teatro cigano transforma vidas em Rondonópolis

Por Everton Plinio Martiny • 05/05/2026 08:33 519 acessos
Teatro cigano transforma vidas em Rondonópolis

O projeto “Rarripe – Ciganos em Cena” vem promovendo uma verdadeira transformação cultural e social em Rondonópolis, ao oferecer formação em teatro para membros da comunidade cigana local. Desenvolvida pela Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso (AEEC-MT), a iniciativa conta com apoio da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel) e teve início em fevereiro deste ano, reunindo inicialmente 14 participantes. Desde então, os encontros acontecem semanalmente, sempre aos sábados, no Salão Comunitário do Jardim Iguaçu, consolidando-se como um espaço de aprendizado, expressão e fortalecimento da identidade cultural.

A proposta vai além da simples introdução às artes cênicas. O curso abrange diferentes áreas técnicas do teatro, incluindo iluminação, sonorização, cenografia e figurino, permitindo uma formação completa e integrada. O objetivo principal é a criação de um espetáculo com temática cigana, que poderá ser apresentado em eventos culturais e artísticos, ampliando a visibilidade da cultura cigana e combatendo preconceitos históricos. Um dos aspectos mais marcantes do projeto é o perfil das participantes, formado majoritariamente por mulheres com mais de 50 anos, o que reforça o caráter inclusivo e inovador da iniciativa, considerada o primeiro grupo de teatro composto exclusivamente por artistas ciganos no Brasil.

A ideia do projeto começou a ganhar forma em 2017, quando o idealizador Rodrigo Zaiden teve contato com uma apresentação teatral protagonizada por mulheres ciganas não profissionais em Portugal. A experiência despertou uma nova perspectiva sobre o potencial transformador do teatro, motivando a adaptação da proposta para a realidade mato-grossense. Segundo ele, o impacto vai muito além da preparação para o palco, refletindo diretamente na autoestima, na comunicação e nas relações interpessoais dos participantes. O teatro, nesse contexto, se torna uma ferramenta poderosa de autoconhecimento, criatividade e convivência.

Para quem participa, os benefícios são perceptíveis desde os primeiros encontros. A aluna Amanda Pinheiro destaca que o curso estimula o corpo e a mente, incentivando a movimentação, a concentração e a expressão criativa. Esse desenvolvimento integral reforça o papel do projeto como agente de transformação social, promovendo bem-estar e valorização cultural.

O nome “Rarripe”, oriundo da língua Chibe, pertencente ao tronco étnico Calon, carrega significados como “ilusão”, “ficção” ou “mentira”. A escolha não é aleatória, mas estratégica, buscando desconstruir estigmas e estereótipos historicamente associados às comunidades ciganas. Ao ressignificar o termo, o projeto contribui para a construção de uma nova narrativa, baseada no respeito, na arte e na representatividade.

Integrado ao Grupo de Danças Tradição Cigana, que existe há cerca de 15 anos, o curso fortalece ainda mais a conexão com as raízes culturais da comunidade. Muitos participantes atuam simultaneamente nas duas atividades, ampliando sua formação artística e consolidando a preservação das tradições. As apresentações do grupo acontecem principalmente em eventos promovidos pela AEEC-MT, reforçando a presença cultural cigana no cenário regional.

O projeto foi contemplado na primeira edição da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, que destinou mais de R$ 3,7 milhões para iniciativas culturais em Mato Grosso, sendo R$ 120 mil direcionados ao “Rarripe – Ciganos em Cena”. O investimento evidencia a importância de políticas públicas voltadas à valorização da diversidade cultural e ao acesso democrático à arte.

Com uma programação contínua ao longo do segundo semestre, o projeto segue consolidando seu impacto, transformando vidas por meio do teatro e reafirmando a cultura cigana como parte essencial da identidade brasileira.

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